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“Dor de cabeça não é sintoma de pressão alta”, avisa Hilton Chaves

26 de abril de 2011 | postado por Cinthya Leite

No Recife, o cardiologista Hilton Chaves é o coordenador da iniciativa abraçada hoje pela Sociedade Brasileira de Hipertensão (Foto: Divulgação)

Todo o Brasil se volta hoje (26/4) para o Dia Nacional de Prevenção e Combate à Hipertensão. Para ajudar a compreendermos a doença, assim como alertar sobre alternativas capazes de prevenir a pressão alta e as consequências que o problema causa (como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral), o cardiologista Hilton Chaves conversou com o Casa Saudável. No Recife, ele é coordenador da iniciativa abraçada hoje pela Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH).

Conheci Dr. Hilton pessoalmente há uns três anos, em uma das viagens anuais para assistir ao espetáculo da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, no município do Brejo da Madre de Deus (PE). Conversa vai, conversa vem, ele me disse que erroneamente muita gente acha que dor de cabeça é sinal de pressão alta.

E ele me explicou tim-tim por tim-tim que a enfermidade é literalmente silenciosa. Nunca esqueço o recado dele: “A pressão arterial sobe porque a gente se estressa com a dor de cabeça. Aí, é comum as pessoas associarem o incômodo à hipertensão”. Essa ausência de sintomas é mais um motivo que faz a gente não deixar de lado um estilo de vida saudável, mesmo acreditando que não temos uma genética forte para o problema.

Vale informar que hoje, para marcar a data na capital pernambucana, Hilton Chaves organiza atividades educativas em frente ao portão principal do prédio dos ambulatórios do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (HC/UFPE). É lá onde funciona a primeira Clínica de Hipertensão do Nordeste, fundada há 20 anos.

“Iniciaremos as atividades de medição da pressão de todas as pessoas que passarem pelo portão do HC até o meio-dia. Haverá distribuição de folders com recomendação sobre modificação de estilo de vida”, diz o cardiologista, que é professor adjunto da UFPE . “Vamos alertar que não só hipertensos devem ter hábitos saudáveis, mas também toda a população.”

Confira os destaques deste bate-papo que tive com ele. 

- O que, de fato, é hipertensão arterial? Níveis acima de 12/8?

Hipertensão arterial ou simplesmente pressão alta é uma doença crônico-degenerativa, com o envolvimento de vários genes. E também é multifatorial, pois fatores ambientais têm implicação direta no aparecimento da enfermidade, além da predisposição genética. Estão relacionados com o problema o excesso de peso corporal, o excesso de sal nos alimentos, o sedentarismo, o tabagismo, a obesidade, a ingestão excessiva de bebida alcoólica, o estresse emocional e a diabete. Trata-se de uma doença silenciosa. Universalmente, aceita-se que a pessoa é hipertensa quando valores do tensiômetro ficam acima de 140/90 mmHg. É claro que esse ponto de corte é arbitrário. Os estudos populacionais, contudo, indicam que as pessoas estarão mais propensas ao desenvolvimento de ataques cardíacos (infartos), derrames cerebrais (AVCs), insuficiência renal, morte súbita por arritmias cardíacas e insuficiência cardíaca (falta de ar aos mínimos esforços) quando apresentam níveis acima de 140/90 mmHg.

- E quem se enquadra no grupo chamado “pré-hipertenso”?

O denominado grupo de “pré-hipertensos” é outro arbítrio dos especialistas no assunto. A Sociedade Americana de Hipertensão preconiza que um indivíduo, cuja pressão esteja entre 130-139/80-89, como pré-hipertenso. Essa classificação americana sofreu muita crítica, pois se você for considerado “pré-hipertenso”, poderíamos igualmente nos chamar de “pré-mortos”, uma vez que todos morreremos um dia. E como a pressão arterial aumenta com a idade, fatalmente, após os 60 anos, mais de 70% dos indivíduos padecerão de hipertensão arterial. Em suma, estão em desenvolvimento estudos para saber se aqueles indivíduos com pressões mais baixas (abaixo de 140/90) também estariam tendo lesões em órgãos-alvo (coração, cérebro e rins) de forma insidiosa e precoce. Se isto se confirmar, passaremos a precrever medicamentos para essas faixas de “pressão mais baixa”. No momento, a recomendação mundial é que a pressão arterial deva permanecer sustentada em patamares abaixo de 140/90 mmHg para a maioria da população.

- O controle da pressão arterial dos idosos deve ser diferente do acompanhamento feito com a população jovem?

Os idosos são os indivíduos mais afetados pela hipertensão, mas essa história de que o vovô e a vovó podem e devem ficar com pressões elevadas (170/100; 180/110; etc) é engano. Se isso acontece, a mortalidade por doenças cardiovasculares aumenta muito nesta faixa etária. O que não sabemos até hoje é até que ponto devemos baixar de pressão. Ainda assim, acredita-se que se deve baixar a pressão até onde o indivíduo ficar bem sem apresentar sintomas de hipotensão, como tonturas, desmaios e mal-estar.

- Podemos dizer que as doenças cardiovasculares, como a hipertensão, estão sendo associadas cada vez mais com o desenvolvimento de algum grau de demência?

Sim. Há estudos que mostram alta correlação entre hipertensão e demência. Não é de surpreender. Afinal, se a hipertensão é uma doença vascular, os vasos do cérebro alterados pela pressão alta causarão algum dano ao cérebro como um todo e, dessa maneira, propiciar a demência em certos indivíduos.

- Dor de cabeça é sintoma de pressão arterial alta? A hipertensão tem algum sinal que não seja silencioso?

A dor de cabeça não é sintoma de pressão alta. Acreditou-se por muitos anos nisso. Os ingleses, no entanto, já desmoralizaram esta questão há um bom tempo. A doença é silenciosa e considerada assassina silenciosa. E é por este aspecto que se torna mais difícil convencer alguém que convive com a enfermidade a se tratar, já que não há sintomas a serem tratados.

- O tratamento da hipertensão arterial difere de acordo com o sexo?

Não. A doença é democrática, atinge brancos, negros, pobres, ricos, jovens, idosos.

- Qual o real impacto do consumo de sal no desenvolvimento da hipertensão?

É tão brutal que mesmo aqueles com níveis de pressão abaixos de 12/8 jamais devem se iludir comendo sal em excesso.

- Qual o peso da hereditariedade na hipertensão?

A hipertensão tem um elo genético indiscutível. Filhos de hipertensos têm mais chances de se tornarem hipertensos do que os filhos de quem não tem a doença. De qualquer maneira, nunca é demais dizer que os hábitos saudáveis têm que ser adotados pela população em geral, e não apenas por quem é hipertenso.

* Leia mais clicando aqui: “Campanhas sobre hipertensão tomam conta das redes sociais”

4 Comentários

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  3. Muito boa a entrevista.

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